| Vídeo-Concerto | A MENINA DOS FÓSFOROS | 2011
 

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A MENINA DOS FÓSFOROS | Concerto baseado no conto de Hans Christian Andersen (1805-1875, Dinamarca, The Little Match Girl, 1848). Concerto no Centro Cultural de Cascais (CCC) | 2 de Dezembro 2011 | 21h30 | Duração ~13 minutos. Concepção e Música - Paulo Ferreira-Lopes | Electrónica live - André Perrota | Vídeo - Carlos Sena Caires.

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| A MENINA DOS FÓSFOROS

Estava tanto frio! A neve não parava de cair e a noite aproximava-se. Aquela era a última noite de Dezembro, véspera do dia de Ano Novo.

Perdida no meio do frio intenso e da escuridão, uma menina seguia pela rua fora, com a cabeça descoberta e os pés descalços,  roxos de frio.

A menina levava no avental uma quantidade de fósforos, e estendia um maço a toda a gente que passava, apregoando: — Quem compra fósforos bons e baratos?

O dia tinha-lhe corrido mal. Ninguém comprara os fósforos.

Sentia fome e frio, e estava com a cara pálida. Os flocos de neve caíam-lhe sobre os cabelos compridos e loiros, que se encaracolavam graciosamente em volta do seu pescoço esbelto; mas ela nem pensava nos seus cabelos encaracolados.

Através das janelas, as luzes vivas e o cheiro da carne assada chegavam à rua, porque era véspera de Ano Novo.

Sentou-se no chão e encolheu-se no canto de um portal. Sentia cada vez mais frio, mas não tinha coragem de voltar para casa, porque não vendera um único fósforo. Pensou em acender um  fósforo! Se ela tirasse um, um só, do maço, e o acendesse na parede para aquecer os dedos...Pegou num fósforo e a chama espirrou e o fósforo começou a arder!

Parecia a chama quente e viva de uma candeia, quando a menina a tapou com a mão (‘’’)  Mas, que luz era aquela? Julgou que estava sentada em frente a uma lareira onde lume ardia com uma chama tão intensa, e dava um calor tão bom! A menina estendia já os pés para se aquecer, quando a chama se apagou e viu que estava sentada sobre a neve, com a ponta do fósforo queimado na mão.

Riscou outro fósforo, que se acendeu e brilhou. A chama iluminou uma parede Aí a  menina viu o interior de uma sala de jantar onde a mesa estava coberta por uma toalha branca, resplandecente de loiças finas, e no meio da mesa havia um ganso assado que fumegava, espalhando um cheiro apetitoso. De repente, o fósforo apagou-se, e a pobre menina só viu na sua frente a parede negra e fria.

Acendeu um terceiro fósforo. Imediatamente se encontrou ajoelhada debaixo de uma enorme árvore de Natal. Milhares de velinhas ardiam nos ramos verdes, e figuras de todas as cores, como as que enfeitam as montras das lojas, pareciam sorrir para ela. A menina levantou ambas as mãos para a árvore, mas o fósforo apagou-se, e todas as velas de Natal começaram a subir, a subir .

Acendeu ainda mais outro fósforo. No meio da chama apareceu a avó, de pé, com uma expressão muito suave, cheia de felicidade! — Avó! — gritou a menina — leva-me contigo!

Quando este fósforo se apagar, eu sei que já não estarás aqui. Vais desaparecer como a lareira, como o ganso assado, e como a árvore de Natal...

De seguida acendeu todos os  fósforos que restavam, porque queria que a avó continuasse junto dela, e os fósforos espalharam em redor uma luz tão brilhante como se fosse dia. Nunca a avó lhe parecera tão alta nem tão bonita. Tomou a neta nos braços e, soltando os pés da terra, no meio daquele resplendor, voaram ambas tão alto, tão alto, que já não podiam sentir frio, nem fome, nem desgostos.

Quando rompeu a manhã gelada, naquele canto, junto do portal, estava caída uma menina, com as faces roxas, um sorriso nos lábios… morta de frio, na última noite do ano. 

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Ensaios | Centro Cultural de Cascais | dias 1 e 2 de Dezembro 2011 | Fotografias: Carlos Sena Caires©2011

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